O luxo do lixo

O lixo é um assunto sério por aqui. Além de existir uma consciência ecológica muito grande, a mão-de-obra e o espaço físico são caríssimos portanto, espera-se que os cidadãos façam a sua parte e se não fizerem, que paguem para que alguém o faça.

A meta da União Européia é ter 50% do seu lixo urbano reciclado até 2020. Não é pouco, se pensar bem. A cada quilo gerado, um quilo reciclado. A Suíça e mais quatro países já atingiram a meta mas, ao invés de se vangloriar, continuam a procurar maneiras de fazer mais e melhor. Aliás, li que 35% do lixo da UE já é reciclado, contribuindo com 1% do PIB do bloco Europeu. Impressionante, não?

A Suíça, sendo um país verdadeiramente democrático, resolveu atacar este problema com duas armas: educação e multa.

Desde 2012 no Cantão de Vaud, o saco de lixo é tributado e obrigatório. Se te pegam jogando lixo em sacos não oficiais, você está frito! Cada saco de 35 litros custa CHF 2-, R$ 7,00 no câmbio de hoje. Os sacos são vendidos em pacotes de 10 unidades, ou seja, você desembolsa R$ 70,00 comprando sacos de lixo. Não é barato....

O modelo é muito simples e eficiênte: Não quer reciclar? Então pague pelo luxo de gerar lixo.

Para quem recicla, o volume de lixo descartado é muito menor ou seja, menos sacos necessários. Se reciclar, estará usando menos lixeiros, menos gasolina, menos incineradores e por aí vai. Justo pagar menos que alguém que não se dá a este trabalho. Além dos sacos de lixo pagos, que variam com o uso de cada um, em St-Prex, onde moro atualmente, cada adulto paga uma taxa anual de lixo, usada para a administração da déchèterie.

E a questão de educação vem de cedo: nas escolas existe um dia que as crianças de todas as idades saem das classes para limpar as ruas. Cada um com um saco nas mãos, um solão na cabeça, para limpar as redondezas da escola. Esta fotografa tirei o ano passado, da minha janela. Garanto que depois desta experiência os pequenos pensam duas vezes antes de jogar o lixo na rua.

Aqui na minha communa é obrigação dos habitantes levar seus sacos de lixo até as caçambas subterrâneas. A mais perto fica a dois quarteirões de casa. Lá temos caçambas também para papéis e vidros, estes separados por cores. Como as caçambas são subterrâneas, não existe o risco de cheiros desagradáveis ou de raposas baderneiras, por que cachorro aqui não vive nas ruas e sim as raposas. É lá que o caminhão passa, não na sua porta. Uma economia de pelo menos mão-de-obra e combustível para a maioria dos cidadãos.

Em casa reciclamos vidros, plásticos, garrafas pet, papel, papelão, alumínio, pilhas e baterias, lâmpadas e ferro. Doamos para entidades roupas, móveis e objetos que não usamos mais. Os eletrodomésticos têm que ser recebidos nas lojas, por lei. Os supermercados são imensos centro de reciclagem. E tem a déchèterie, que recebe um pouco de tudo.

É realmente um trabalhão, ocupa espaço, exige disciplina e organização. Já me adaptei e coloco tudo em sacolas separadas, para facilitar na hora de descartar. As garrafas pet vão direto para dentro do carrinho de supermercado, pois é lá que elas são descartadas. Mas ainda assim, bem trabalhoso!

Minha última invenção foi comprar uma compostadeira, para colocar grama, folhagens e as cascas dos alimentos não cozidos para transformar tudo em adubo. Estou gastando menos sacos de lixo, fazendo minha parte e gerando adubo para minhas abóboras!

Já me foi dito que o órgão mais sensível do ser humano é o bolso. Eu concordo, e parece que as autoridades Suíças também!