Desacelerando para o sabático

Cheguei na Suíça no final de julho de 2006 para começar minhas aulas no início de agosto. Parei de trabalhar no início de Março pois precisava estudar inglês para fazer um teste qualificativo e ser aceita na pós graduação. Para saber meu nível, fiz o teste e sortuda, atingi o resultado esperado sem o stress de ter que estudar. E então, fazer o que nos próximos três meses? Desacelerar!

Parece ridículo mas a gente não está preparada física e nem emocionalmente para desacelerar da correria e poder encarar um período sabático.

O dia ficou bem longo sem trabalho. Em um primeiro momento senti falta da enxurrada de emails, do telefone tocando e da agenda carregada. Coisas que eu reclamava e não queria mais faziam falta. E estava sozinha, ninguém tinha tempo para mim, todo mundo continuava na loucura, só eu que havia parado!

Mas não larguei carreira e salário para ficar a toa, sem fazer nada.

Incluí na minha simples rotina o exercício, já que tinha tempo e não mais a desculpa de estar ocupada. Vendi meu carro. Sempre gostei de andar a pé. Bastante animada, e alienada aos desafios das ladeiras da Vila Madalena, peguei emprestada a bicicleta de um amigo. Quase morri!

Fui carregando então minha agenda com coisas que gostava, e que não podia fazer quando trabalhava. Tomava todo dia café da manhã na padaria. Incluí o hábito de correr no Ibirapuera diariamente, onde levava meus sobrinhos pequenos para passear. Depois brincava com eles. Sem pressa, curtindo de corpo e alma. Fazíamos máscaras de papel maché, ensaiávamos peças de teatro, criávamos fantasias...

Foi uma época deliciosa.

Até que fui embora.

Glion, onde fica minha escola, é uma cidade super pequena localizada nas montanhas em cima de Montreux. Eu havia reservado um quarto individual em um hotel simples que tinha convênio com a escola, e me premiei com a vista para o lago, que me custou alguns dos francos suíços mais bem gastos da minha vida

Sou formada em engenharia mecânica. Lembro de noites e mais noites em claro, estudando feito uma condenada. Estudar para mim sempre foi um sacrifício. Nunca gostei, prefiro por a mão na massa e aprender fazendo. Fugi o quanto pude de pós e MBA.

Mas como queria realmente entender a hotelaria, e investi muito neste programa, vim preparada para encarar uma pós diabólica em uma escola que na época era considerada uma das três melhores do mundo. Programa em inglês, assunto novo, imaginava que teria que estudar feito louca. Já estava conformada. Mas outra surpresa me esperava, deparei com um programa ridiculamente leve e óbvio.

Não sei se foi a comparação com a engenharia, ou se foram meus quinze anos de experiência trabalhando, ou a maturidade que a idade traz mas, fato é que foram seis meses super leves.

Aprendi que a gente geralmente subestima o nosso potencial. Me formei com distinção e confesso que ralei bem pouco para isso.

Eu assistia as aulas de manhã, lia ou fazia o que tinha que ser feito no início da tarde e depois saia para correr ou em volta do lago em Montreux ou em direção a Les Avants, passando por uma floresta perto da escola. Depois tomava um banho e ia assistir ao pôr do sol, que só perdia para o da fazenda Jequitibá, e ficava lá vendo aquilo tudo sentada no meu terracinho. A grande decisão que tinha que tomar era se jantaria na escola ou comeria queijos e vinho no meu quarto. Adorava!

Foi neste terraço que desacelerei o que faltava desacelerar. E repensei sobre a vida que queria levar.

A rotina do trabalho, a cobrança social, a pressão financeira, a falta de segurança, o trânsito e a invasão da tecnologia, tudo isso intoxica demais. Ficar de frente para o Lago Genebra, conviver com uma comunidade internacional de mais de 60 nacionalidades e estar no meio de jovens idealistas, e de alguns até irresponsáveis, me fez muito bem.

Desliguei. Off total!

Mais sobre este assunto? Aqui:

Meu inverno na França, na fronteira com a Suíça

Adaptando e integrando na Suíça

Cansei e Mudei

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