Adaptando e integrando na Suíça

Os Suíços são meio quietões, não começam a conversar do nada. Reservados, vivem entre eles.

Ou melhor, viviam, porque agora me enturmei!

Logo que comecei a namorar o Meu Suíço, comecei a conhecer suíços. Antes, praticamente conhecia estrangeiros. Em um país onde uma em cada quatro pessoas é estrangeira, é bem mais fácil se relacionar com pessoas com experiências parecidas com a sua: também morando fora, interessados em culturas diferentes, longe de amigos e da família e fluentes em inglês.

Eu e Meu Suíço nos falamos em inglês mas, dependendo com quem saímos, mudamos para o francês. Senti uma melhora significativa no meu francês, apesar de um amigo ainda me provocar dizendo que tenho um francês exótico, “français exotique”. Pior que sei que tenho mesmo.

Nunca tive sotaque definido. No Brasil alguns achavam que eu era carioca, outros mineira, até do Rio Grande do Sul eu já fui. Aqui a mesma coisa, quando falo francês acham que sou inglesa. Penso que como aprendi francês falando inglês misturei tudo.

Enfim, mon français exotique estava bom para eu me virar nas coisas do dia a dia. Acontecia que, sempre que começava a me explicar ou engatava em uma conversa, as pessoas delicadamente mudavam para o inglês. Super frustrante, porém conveniente. Minha desculpa: não tinha oportunidade de praticar para melhorar, atingi o plateau!

A melhora do meu francês veio das pequenas coisas cotidianas, como ouvir rádio, assistir ao noticiário local e começar a me relacionar com vizinhos.

Saint Prex tem menos de 6000 habitantes. Brinco que aqui é um povoado, não uma cidade. Os Suíços pensam que Lausanne é grande, com seus 130 000 habitantes e que St Prex é normal. Para eles até que é mas, para colocá-los em perspectiva, explico que minha cidade natal tem quase três vezes o tamanho do país deles. Aí eles começam a entender.

Moro em uma casa sem muros, que fica em um caminho sem saída onde a velocidade máxima é 20 km/h. As crianças deixam as bicicletas nas ruas, vão para a escola sozinhas e brincam com os vizinhos na rua antes de jantar.

Quando mudei para cá Meu Suíço achou que eu fosse morrer de tédio. Que nada, adorei.

Acho que a adaptação é uma questão de atitude... se eu quiser que Saint Prex me ofereça o que São Paulo oferece, certamente vou me frustrar por aqui mas, se eu resolver aproveitar e curtir as coisas únicas que só St Prex tem, vou amar. E é assim que faço.

Descobri a jardinagem e enchi meu jardim de flores e ervas de cozinha. Deixo meus vizinhos pegarem ervas no meu jardim. Hoje eles que regam minhas plantas quando viajo.

Bati na porta e convidei vizinhos para jantarem em casa.

Plantei abóboras em uma parte do jardim que não crescia nada. Já tenho mais de 20 crescendo desesperadamente. Peço conselhos aos agricultores daqui e já convidei meio mundo para nossa festa de Halloween.

Comecei a correr em volta dos vinhedos. Faço tudo a pé, para aproveitar, desfrutar e me exercitar. Cruzo os vizinhos, sempre sorrio e cumprimento “Bonjour!”.

Deixo a porta-janela aberta, desfrutando da segurança daqui. Jantamos no jardim todos os dias quentes.

Vou as festas regionais. Como nos poucos restaurantes daqui.

Enviei email e estou coletando roupas e calçados dos vizinhos para enviar aos refugiados da Síria.

Não reclamo do que falta. Curto de verdade o que tenho. A integração é um esforço diário que exige muita vontade e discipina.

Só sinto falta de caipirosca de lima da pérsia.

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