Meu inverno na França, na fronteira com a Suíça


Já havia estado na Europa no inverno mas nunca por mais de dois meses. Em janeiro de 2007 iniciei meu estágio na cozinha de um restaurante gourmet na França, bem próximo da fronteira com Genebra.

Sem falar direito francês, eu estava no nível hierárquico mais baixo da cozinha e era a mais velha do grupo. Abaixo de mim, ninguém! Era um trabalho bem físico, cansativo. Dividir um espaço pequeno com pessoas jovens, ambiciosas e sob o estresse de uma cozinha é uma experiência única. E para piorar o chef, sub-chef e staff não eram pessoas que haviam sido expostas a muitos estrangeiros. Suspeito que eles me achavam meio burrinha, limitada mesmo. Não conseguia me expressar direito e muito menos entender o que eles queriam. Me pediam para trazer uma “courgette” e eu voltava com uma berinjela ao invés de uma abobrinha. Definitivamente me achavam limitada!

Durante o estágio morava em um hotel bem meia boca, simples simples e simples. Mas me adaptei bem por lá. Comprei um novo lençol e avisei a dona do hotel que eu mesma faria a limpeza do meu quarto, a troca da roupa de cama e toalhas. Melhor a minha que a limpeza dela. Simples mas limpinho!

Acostumada com a Suíça, estranhei a falta de transporte público na França. Precisava ir para o restaurante duas vezes por dia, preparar e trabalhar no almoço e no jantar. Meu hotel ficava a uns 3 kms do restaurante, montanha acima. Dependia de caronas, muito ruim. Sempre fui independente.

Com a neve, o frio, e o trabalho físico do restaurante, andar ou ir de bicicleta não eram opções viáveis.

Depender de carona dos outros também não era, uma vez que nas minhas horas livres eu gostaria de decidir o que fazer, ou o que não fazer. Precisava ficar sozinha, ter minha privacidade. Queria poder decidir minha vida.

Então fui a uma loja de motos e comprei uma scooter.

Uma semana depois ela chegou. Azulzinha, não minha primeira opção de cor, mas a que a entrega era mais rápida. Nunca havia dirigido moto na vida. Perguntei na concessionária dicas de como dirigir. Eles não acreditaram. Subi nela e depois de algumas barbeiragens aprendi. Gosto de aprender fazendo.

Com minha scooter reconquistei minha independência.

Saía do restaurante entre o almoço e o jantar e circulava de scooter. Adorava. Fazia minhas compras e explorava os arredores. Muito lindo andar nestas cidades minúsculas da França. Não é a toa que a França é a França!

No hotelzinho havia uma geladeira que os hóspedes podiam usar. Comprava iogurte e queijos e deixava lá, para meu café da manhã. As refeições principais eram feitas no restaurante. Comecei a notar então que meus iogurtes diminuíam em uma velocidade maior que eu comia. Coloquei então uma placa na geladeira: “Não mexa! Obrigada”. Nenhum efeito! E eu louca da vida com o rato da geladeira. Precisava me vingar do descarado ladrão de iogurtes.

Coloquei então um pote de iogurte em cima do aquecedor. E deixei ele lá, no quente. Depois o movi para fora da janela, para dar um choque térmico. Novamente na área aquecida do quarto. Preparei o laxante, digo iogurte, com frieza durante alguns dias. Acho que aquele negócio deve ter fermentado e estragado de maneira violenta. E então ele voltou para a geladeira comum, atrás do mesmo aviso de "Não Mexa”. E é claro que sumiu. Nunca mais fui furtada!

Aprendi depois que no inverno as janelas são as melhores geladeiras que existem. Comprei um container fechado e nele colocava minhas compras do lado de fora da janela do meu quarto, uma geladeira a céu aberto.

E fui melhorando meu Francês básico, aprendendo um pouco mais da cozinha e vendo a primavera chegar.

Foi uma época muito introspectiva: não conseguia conversar de tudo, tinha uma internet bem mais ou menos para falar com família e amigos. A verdade é que ninguém entenderia o que eu estava passando alí. Era uma coisa minha, difícil de explicar.

Li bons livros, pensei na vida, revi meus conceitos.

Naquele quartinho simples cresci e tomei definitivamente as rédeas da minha vida. Decidi o que queria e o que não queria mais.

E ai a primavera foi chegando. A montanha começou a mudar de cores. Antes toda marrom, fiquei fascinada como ela começou a ficar verde de baixo para cima. Cada dia a faixa verde subia um pouquinho mais e as cores foram voltando. Plantamos ervas. Tomávamos café ao ar livre.

Antes bem encapotada, para me proteger do vento e do frio, fui diminuindo meus equipamentos, até que me vi indo para o restaurante só com o uniforme da cozinha.

Aquele inverno foi especial. Fiquei sozinha comigo mesma. E nos demos super bem.

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