Mercado de Pulgas na Suíça

Aprendi com meus pais a gostar de coisas antigas. Não sou expert nem conhecedora de nada mas desenvolvi através eles um faro que muitas vezes me leva a descobrir coisas boas. Com eles também aprendi a pechinchar e a fazer bons negócios. Sinto um gosto especial quando compro algo valioso e pago quase nada.

Quem me conhece bem já comeu em casa usando meu faqueiro todo desparelhado. Foi montado em várias visitas a leilões de arte e em feiras de antiguidade durante viagens. Cada talher tem uma história e foi cuidadosamente selecionado. Comecei a montá-lo em 1994, quando mobiliava meu apartamento e me vi dura com todas as novas despesas. E nunca mais parei, tenho que me segurar para não comprar mais, mais e mais sem parar! A vantagem é que minhas mesas nunca são iguais...

Na casa de meus pais ainda encontram-se móveis antigos, comprados caindo aos pedaços em um asilo em Osasco e perfeitamente restaurados pelo Sr. Ananias, hoje já falecido. Sr. Ananias praticamente mudava-se lá para casa a cada restauração. Trabalhava muito bem, era um artista, mas não era dos dez mais rápidos que já conheci na vida. Desconfio que os bons negócios na aquisição dos móveis eram zerados pela conta da marcenaria.

Sempre gostei de garimpar. Procurar coisas com potencial e então limpar, restaurar, até chegar a um resultado diferente. E aqui na Suíça estou na Disneyland do garimpador!

Andando por Mercados de Pulgas (Marché aux Puces), entidades filantrópicas e comerciantes de segunda mão, logo descobri que o “velho” da Suíça equivale ao “antigo” do Brasil. E é meio óbvio, pois valorizamos muito as antiguidades europeias, ainda pouco disponíveis no Brasil por uma questão logística e de custo. O “velho” daqui é aquilo que aprendi a admirar desde pequena, e que raramente cruzava o oceano.

Também entendi que, como existe um custo grande para descartar o lixo, e um espaço reduzido nas casas, as pessoas doam coisas usadas para entidades, que se ocupam de comercializar por alguma causa. E como tem entidade por aqui!

Descobri então entidades, endereços secretos, e comecei minhas peregrinações em busca de objetos com potencial. Um dos meus programas preferidos!

Com calma e muita curiosidade, corro as prateleiras de louças antigas, olhando atentamente as marcas e os brasões muitas vezes estampados. Já encontrei um prato de porcelana alemã datado de 1760, que paguei CHF 1 para adquirir. Esse estava bem sujo, nojento mesmo, no meio de uma pilha de pratos lascados, tinha marcas de pó que deviam estar por lá desde o século passado. É sempre uma loteria. Apostei e ganhei. Se bem que desta vez o risco do investimento foi praticamente inexistente.

Sem resistir ao charme e a qualidade de coisas perdidas em pilhas de pratos made in china, me aventuro a comprar louças diferentes, antigas, coloridas e muitas vezes de marcas famosas como Limoges, Rosenthal ou coisas interessantes da Bavária. Aí misturo tudo e vira uma festa. Preciso me controlar, se não exagero. Acho uma delícia arrumar a mesa e escolher a louça de acordo com o convidado.

Também já comprei móveis usados, que lixei e lustrei durante dias, restaurando e modernizando através de algum toque pessoa e de um desenho criado pela Nina. Nada como uma lixa, uma tinta, um verniz e uma irmã!

E roupas, claro! Se encontro vestidos diferentes e estampados, não resisto! Muitas vezes preciso repor um botão ou fechar um decote, o que faço com prazer. Imagino então as velhinhas que vestiram, e as histórias que viveram.

E rendas, linhos, coisas bordadas a mão com monogramas... Raridades que hoje ninguém mais faz. Fico vasculhando para procurar letras com o nome de amigos. Quando acho compro e presenteio. Minha irmã ganhou guardanapos. É divertido, fica tudo com história.

Garimpar no mercado de pulgas exige muita calma e assiduidade. Tem que ir sempre e saber sair de lá com as mãos sempre sujas e as vezes abanando. Não dá para comprar só por comprar. Tem que ter sorte, nem sempre as raridades estão presentes. Também tem que fazer cara de que não está nem ai quando encontra uma preciosidade, para que o preço, nem sempre estampado em etiquetas, não suba proporcionalmente ao seu excitamento.

Mas o segredo mesmo é levar lencinhos umedecidos para limpar as mãos na saída. Porque os melhores negócios a gente encontra nos lugares bagunçados e sujos!