Achados e perdidos suíços

Confesso que demorei um pouco para entender como funcionava o achados e perdidos informal daqui. Demorei mais pela barreira cultural que dos meus genes femininos e minha cabeça loira. Sim, porque quando recuperamos algo perdido nas ruas do Brasil o fato é quase motivo de reportagem em jornal.

Sempre andei muito, para cima e para baixo, e sempre via objetos pendurados em árvores, muros e cercas. Achava engraçado. Intrigante. Quem é que deixa as coisas penduradas no meio da rua? Até o dia que vi uma senhora abaixando-se na rua para pegar no chão uma luva até bem gasta para meus gosto. Ela deu uma abanada na luva perdida o que a fez mais fofinha e a colocou em um muro, lugar acessível e visível aos pedestres. Entendi finalmente o “achados e perdidos” daqui.

Digo que o inverno é a estação de perder as coisas. Mesmo sem ser criança a gente perde luvas, chapéus, esquece guarda-chuvas e abandona echarpes em todos os cantos. Dá muito trabalho se vestir no frio e é fácil deixar rastros quando se entra e se sai de ambientes fechados, geralmente super aquecidos.

O inverno é uma longa realidade mas não impede que os Suíços façam suas atividades corriqueiras. As crianças aqui brincam na rua, vão para a escola com seus patinetes e jogam jogos entre eles nas quatro estações. Correm e divertem-se, independentemente do clima. Correndo elas começam a tirar as camadas de roupas, que geralmente ficam jogadas e esquecidas pelos cantos nas ruas. E aí vem sempre alguém que vai abaixando, catando e pendurando o que encontra.

Aqui o recreio é na rua – sim, a escola não é murada e todas as crianças vão para a rua no intervalo – e na correria das brincadeiras as camadas de roupas necessárias para mantê-los aquecidos no inverno ficam espalhadas pelo chão. Vivo passando a pé na frente de uma escola aqui em Saint-Prex e me divirto com o número de objetos perdidos após o recreio ou o horário de saída.

Outro dia encontrei uma luva e pendurei em uma grade. Passei mais tarde por lá e vi que ela ainda estava lá. Dia seguinte cedo, permanecia por lá. Alguém perdeu mesmo, pensei. Mas a tarde fiquei feliz, a luva desapareceu. Voltei para casa sorrindo, com a sensação gostosa de saber que tinha ajudado uma criança a não levar uma mega bronca da mãe!

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