Teatro Beausobre em Morges


Aprendi a respeitar o teatro. E aprendi a vibrar com todas as emoções que ele traz.

Na época de estudante ia ao teatro em São Paulo e adorava, era um evento top na minha agenda.

Adorava a criatividade do cenário e me fascinava saber que tinha que ter só o básico, como em um avião, tudo é pensado e pesado. Não dá para ter superfluo no palco, simplesmente não cabe.

Também lembro que me chamava atenção o número de palavrões. Era quase que obrigatório falar palavrão no teatro. Achava intrigante e as vezes até forçado, mas era assim: Teatro tem que ter muito palavrão.

E teatro tinha que ter também alguma sacada política, um comentário malicioso ou irônico sobre a situação atual, independentemente do tema da peça.

E improvisações também... sempre tinham! Quando os próprios atores caiam na risada, ou esqueciam parte do texto era impagável, o melhor!

Palavrão + Política + Improvisação = Teatro, pelo menos para mim!

No teatro tenho a impressão que os atores estão lá para o público e que uma apresentação é sempre diferente da outra. Não tem como fazer igual. Faz a gente se sentir prestigiado, especial.

Depois de formada, com o caos do trânsito e as dificuldades logísticas da minha cidade, minhas idas ao teatro ficaram menos frequentes... achava complicado sair, pegar fila, comprar ingresso em dinheiro e depois voltar arrumada e perfumada para assistir a peça. Sim, também aprendi que para ir ao teatro a gente se arruma mais que para ir ao cinema. Respeito aos atores.

Aqui na Suíça não tinha ainda ido ao teatro. Já fui a consertos, balets, stand up comedy em inglês, musicais, mas nunca teatro tradicional. Enfiei na minha cabeça que o meu francês não era bom o suficiente para entender uma peça e que a combinação Palavrão + Política + Improvisação não funcionariam com meu vocabulário e minha cultura atual.

Por mais integrada que a gente se sente, faltam vivências locais. Me explico: uma pessoa pode viver em São Paulo por 15 anos, falar português perfeitamente e estar integrada na sociedade mas, quando na mesa do bar contarem um caso sobre o Chacrinha, este gringo vai boiar. Entendeu? Fugia das peças e da sensação de me sentir uma gringa até ontem, quando enfrentei a peça Des Gens Bien.

Meu Suíço recebeu de presente de aniversário um voucher para escolher alguns espetáculos no Teatro Beausobre em Morges. Um presente super simpático acompanhado de um livrinho com a programação 2015/2016.

O livrinho ficou ali, de lado, esperando atenção uns dois meses até o dia que me enchi de coragem e enfrentei. Para minha surpresa e alegria, a programação variada oferecia espetáculos de balet, consertos, show de mágicos, teatro, humor, peças infantis... enfim, impossível não encontrar algo que agradasse.

Selecionei alguns eventos marcando as páginas com pedacinhos de papeis e passei o caderninho para Ele. Confrontando calendário, viagens já marcadas e a programação que nos atraia, ele propôs irmos a uma peça que não havia sido escolhida na minha lista. Homem é assim mesmo, sempre gosta de fazer do seu jeito. Reli a sinopse cuidadosamente e questionei: “Talvez seja um pouco melancólica?”, “Será que os artistas franceses não vão falar rápido demais? ”.

O contra-argumento foi convincente. Ela, Miou-Miou, artista francesa inúmeras vezes indicada e vencedora do César Award, o Oscar da França, presente em filmes clássicos e super famosos, vencedora do premio Molières 2015, estaria em Morges. Okay!

Fomos ontem.

Nos encontramos na estação de trem, onde Meu Suíço comia o melhor hot dog da Suíça, descoberto e apresentado por mim. Roubei umas três mordidas do sanduíche, andamos por 10 minutos e chegamos no teatro.

Quando existe algum evento grande, a polícia local organiza o trânsito, disponibilizando funcionários que orientam os motoristas a pararem os carros ordenadamente. Nenhum estresse na chegada, pelo contrário, só calmaria e organização. Saudade nenhuma dos flanelinhas extorquistas de São Paulo.

Lá dentro, um ambiente aconchegante. No saguão do teatro mesas de diferentes estilos, onde o público sentava para comer alguma coisa e beber um vinho antes do espetáculo. Parecia a sala de estar de alguém.

A sala de espetáculos era imensa e estava lotada. Acústica perfeita. Lugares confortáveis. Os avisos de sempre: celular, não fotos, proibido filmagens.

Abrem-se as cortinas e viajo literalmente sem parar por 2 horas e 10 minutos.

Não me cansei, ri, me emocionei. Experiência espetacular. Não me aguentei de alegria.

Perdi uma ou outra expressão ou palavra mais complicada, que não fizeram falta para entender o contexto geral. Fiquei muito orgulhosa do meu francês. Adorei ser estimulada intelectualmente por uma peça em outra língua, outra cultura.

Foi uma conquista importante e uma constatação generosa.

Eles foram aplaudidos por muitos minutos. Voltaram ao palco quatro vezes. Mas fui eu quem saiu de lá vitoriosa.Théâtre de Beausobre, vou virar freguesa!

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