Mulheres guerreiras

Minha vizinha é uma chinesa que mora aqui há quase 30 anos. Batalhadora, saiu da China com a perspectiva de se fazer e de ampliar seus horizontes. Abraçou as possibilidades que a vida ofereceu.

Casou-se e divorciou-se na Suíça. Teve duas filhas, hoje mulheres. Seu marido, diagnosticado bipolar, traz mais preocupações que soluções para a família. Sempre coube a ela sustentar e estruturar a família, além de quebrar os inúmeros galhos do ex-marido, pai de suas filhas, herança eterna.

Ela, funcionária de confiança na indústria do esporte, se fez sozinha. Como fala francês, inglês e mandarim, recebeu e assumiu cada vez mais responsabilidades no trabalho até se tornar quase que insubstituível no que faz.

De uma dedicação irritante, estava sempre chique, vestida com bom gosto e discrição, sorrindo e viajando pelos quatro cantos do mundo acompanhando jogos.

Quando não viajava, assumia mais e mais responsabilidades no escritório, sempre disponível, sorrindo e nunca dizendo não.

Em casa, a moda Suíça, trabalhava sem parar. Era a responsável por lavar, passar, cozinhar e nos finais de semana cuidar do jardim. Fazia as tarefas domésticas ouvindo música, que a fazia relaxar.

Um ano atrás começou a sentir-se exaurida. Muito cansada mesmo. Seguiu sua rotina afinal, trabalhava entre a casa e o escritório quase 20 horas por dia... normal estar cansada.

Marcas no corpo apareceram do nada e denunciaram leucemia, confirmada por três exames simultâneos. Foi para casa, deixou o carro na garagem e internou-se sozinha no hospital da cidade vizinha. Por uma semana, seu mundo caiu.

Só uma semana durou sua queda.

Depois, saiu a guerreira sei lá onde e a ajudou a encarar o tratamento de quimio, o transplante, a perda dos cabelos e da energia e finalmente a adaptação da nova medula.

Sua mãe veio da China. Sem falar inglês ou francês. Outra guerreira.

Eu, sensibilizada com o drama familiar, assava brownies na tentativa de levar um pouco de doçura a elas. Ela recebia meu carinho e retribuía cozinhando deliciosos ravioles chineses. Segurei algumas vezes na mão dela, quando a encontrava a pé voltando do supermercado. Ela dizia inúmeros “Ni Hao”, e eu dizia vários “Bonjours”. O máximo do nosso diálogo. Depois ela falava algo em chinês e eu respondia o que bem entendia em português. As palavras não interessavam. Eu mostrava solidariedade e ela gratidão.

As meninas ficaram perdidas mas sobreviveram a ausência e a insegurança de uma mãe doente, hospitalizada e vulnerável.

Está em casa agora. Deve encarar ainda alguns meses de recuperação. O processo é lento, mas tem sido de vitórias. Ainda bem.

Hoje ela veio aqui, tomar um café comigo.

Guerreira, já faz planos para quando ficar boa. Lutadora, está se cuidando e vai ficar boa, com certeza.

Precisou viver tudo isso para conseguir repensar o que quer e o que não quer da vida. Entendeu finalmente que não pode fazer tudo só e que precisa pedir ajuda.

Contratou um jardineiro e uma moça que ajuda a manter a casa limp, trabalhando algumas horas por semana.

Esta pensando em mudar para uma casa menor, onde ele tenha menos obrigações e uma vida mais simples. Quer descomplicar.

É guerreira e vai vencer essa. Mas, que preço...

Sua visita me trouxe muita alegria. Fiquei feliz em ve-la se reestruturando. Mas fiquei sensibilizada com sua história.

Quando ela saiu, fiquei pensando... se a gente não se cuida, se omite, não se coloca em primeiro plano, as situações da vida acabam invariavelmente se impondo de maneira traumática. Perdemos o livre-arbítrio e a vida nos obriga a repensar e a agir.

Quantas mulheres guerreiras estão florescendo agora de traumas absolutamente evitáveis? Eu conheço algumas...