Jantar a pé e com cachorro


Eu tenho alma de andarilha e não poderia ter caído em um país melhor: na Suíça o pedestre é rei. As faixas de pedestres são respeitadas, caminhos demarcados e calçadas bem mantidas. Os carros param para não arriscar a vida dos pedestres. As pessoas então andam para cima e para baixo. Não precisei fazer esforço algum para me adaptar a este hábito tão suíço.

Quando vim para St Prex, uma cidade minúscula de 6000 habitantes encravada entre o lago Genebra e cidadezinhas também minúsculas e rurais, me senti no paraíso. De casa ando um quarteirão e já estou nas plantações. Para o sul caio no lago. Ao leste, tenho florestas, vinhedos e rio. A oeste encontro muitas cidadezinhas e até uma zona comercial. Norte, subidas e mais um pouquinho de plantações e cidadezinhas. Uma delícia que não tem como enjoar!

E quem me conhece sabe que adoro jantar fora, experimentar receitas, descobrir novos lugares e tomar um bom vinho. Se puder conciliar andar e comer, vou para as nuvens!

Em uma das nossas andanças, Meu Suíço e eu descobrimos por acaso um restaurante na cidade de Lussy, vizinha em direção ao norte. Uma cidade que não tem nem 600 habitantes não parece ter restaurantes muito promissores mas, confiando no nosso faro de bons gourmets, arriscamos e fomos a pé!

Uma caminhada de 25 minutos, com muitas subidas, passando por um rio, uma pequena floresta coberta por copas de árvores e plantações de diversas culturas. As propriedades aqui são pequenas e claro, as áreas plantadas não fogem a regra. Em nosso caminho cruzamos com canola, feijão, cevada, trigo, milho, uvas e ameixas. Precavidos, alguns proprietários já tinham pronto o feno para o inverno. Flores e lavandas perfumando o caminho. Uma delícia de caminhada.

O que eu adoro é que no horizonte sempre existem montanhas e elas mudam de cor no final do dia. Um espetáculo maravilhoso.

No nosso restaurante Le P’tit-Pressoir, uma mesa nos aguardava embaixo das videiras no terraço.

A carta simples e objetiva oferecia uma opção de menu, três entradas, três pratos e duas sobremesas e exibia com orgulho uma nota dizendo que tudo lá era preparado com produtos locais. A carta de vinho nos foi explicada indicando a região com as mãos “O vinho branco chasselas de Lussy, aqui ao norte, ou o famoso da família Kind” mostrando ao sul a nossa St Prex.

Sem pressa, ficamos nos deliciando com o Pinot Gris de St Prex enquanto aguardávamos nossos pratos. O serviço simpático, feito somente pela bonita proprietária e pelo chef de cozinha, era lento mas bem pessoal. Relaxados, notamos que a mesa ao nosso lado, onde sentava um casal mais velho, tinha um golden retriever. Neste país, os cachorros são até mais educados que as pessoas. Demoramos a nota-lo, deitado do lado oposto da nossa mesa. Meu Suíço puxou papo.

Logo contou que estamos esperando nosso Roger, também golden retriever, que chegará no final de setembro.

Canele, canela em francês, foi então autorizada a nos cumprimentar. Atendia às ordens do casal com charme e elegância.

Eles nos contaram que ela foi adotada aos 4 anos e que não poderia ter sido uma melhor opção. Ela é linda, educada e super carinhosa. Ficamos lá, babando por Canele enquanto observavamos entre as videiras do terraço o céu ficar carregado.

Nossos pratos chegaram e valeram a demora. Delicioso. Comi duas entradas, ao invés de prato e entrada, e não me arrependi. As porções eram realmente generosas.

As primeiras gotas caíram do céu quando a sobremesa chegou. Alguns pingos, nada muito grave. As outras mesas mudaram para dentro. Nós comemos tudo antes de nos mexer.

Lá dentro continuamos nosso papo com os donos de Canele. Simpáticos, nos ofereceram uma carona até St-Prex. Aceitamos. No tempo de pagar nossa conta os pingos d’água se tornaram menos frequentes. Agradecemos então a gentil oferta da carona e dissemos que preferíamos andar. Nada melhor que uma caminhada depois do jantar.

Eles, contrariando a teoria que o suíço é fechado e nada amigável, pediram nosso telefone e disseram que deveríamos manter contato já que Roger chegará em breve. Trocamos cartões.

Sumimos então na escuridão encarando alguns pingos de chuva tardios. Chuvisco de verão. A vista se acostuma logo com a escuridão. Adoro andar livre e segura na noite.

Mais para frente, no escuro da floresta, Meu Suíço acendeu a lanterna do celular.

Rimos imaginando que montaríamos um arquivo com cartões de futuros amigos caninos. Aparentemente não existe melhor maneira de conhecer pessoas que através de cachorros.

Melhor ainda se Roger for bonito e educado como Canele!