Serviço na Suíça. Se vire e resolva.


As pessoas me perguntam como é o serviço na Suíça. Eu respondo que existe serviço sim, é muitas vezes bastante competente, mas é caro. Uma nota. Qualquer serviço é muito caro por aqui.

Mas obviamente tudo pode ser encontrado. Uma boa manicure, alguém para cozinhar, arrumadeira, baba, passadeira, bons garçons. Mas custa. Geralmente os serviços são cobrados por hora e muitas vezes a fatura é enviada pelo correio, depois que o serviço já foi feito.

E como que as pessoas normais, aquelas não milionárias, fazem para resolver os pequenos problemas domésticos? Simples, resolvem se virando. Ralando, em bom português.

Comprou um móvel novo? Abaixa o banco do carro e enfia a caixa lá você mesmo. Sim, pois as taxas de entregas são altíssimas. E chegando em casa, tem que tirar tudo da caixa, ler o manual e montar o móvel. Depois, se virar para reciclar todo o papelão que vem embalando. Em muitas endereços o lixeiro não passa. É você que leva seu lixo aos centros de coleta.

Ah, mas não tem carro? O carro é pequeno? Aluga um por hora. Muitas lojas de móveis oferecem caminhõezinhos a preços bem acessíveis para que o cliente possa transportar ele mesmo suas coisas. E você carrega o caminhão, dirige, descarrega e depois de tudo, ainda tem que entregar o caminhão de volta.

Vai para o aeroporto? Sai rolando sua malinha pelas ruas. Taxi é proibitivo. Todo mundo vai de transporte público. Aqui a gente vê tanta gente andando com mala para cima e para baixo que acha até normal.

Foi para o supermercado? Então aproveita a viagem e leva as garrafas pet para reciclar. E claro, depois de fazer as compras, tira tudo do carrinho, empacota e traz para casa. Empacotador? Aqui não tem não.

Vai fazer um jantar especial para amigos? Se prepare que vem trabalho. Ir ao supermercado, cozinhar, colocar a mesa linda, servir tudo, tirar a mesa linda, guardar tudo o que sobrou e ainda limpar toda a bagunça da cozinha. Se caiu vinho na toalha, desolée, tem que lavar. Precisa adorar receber gente para encarar.

E foi ao restaurante e só tem um garçom para uma sala inteira? Espere pacientemente. E sorrindo. Não adianta chamar, se descabelar. Ele virá, quando puder te atender.

Sujou? Limpe.

Abriu? Feche.

Molhou? Seque.

Quebrou? Junte os cacos. Todos!

E tem também que lavar a própria roupa. Pendurar no varal, recolher do varal. Passar ou sair amassado mesmo.

Quer morar em casa? Se prepare para passar algumas horas limpando seu jardim. Na primavera e no verão são as ervas daninhas. No verão, regar as plantas. No outono, recolher milhares de folhas secas que caem para todos os lados.

Ah, e tem o inverno. No inverno, tem que tirar a neve da calçada e de cima dos carros. É uma obrigação. Ai de quem não fizer.

E quando uma máquina resolve parar de funcionar? De novo, tem que se virar. Virei mestre em desmontar tudo, procurar manual online, mexer até que funcione ou até que não se tenha mais como evitar chamar um técnico de manutenção.

Fazer as unhas? Esquece. Com tanta trabalheira, esmalte não dura é nada!

E é assim mesmo. Não adianta se debater. A gente rala muito na Suíça.

Mas é claro que tem a contrapartida. Para ser justa, não posso omitir algumas coisinhas...

A gente se sente tão competente e superior depois de montar um móvel. O móvel montado vira praticamente um troféu.

Cozinhar se aprende literalmente com a mão na massa. Aprendi assim. E modéstias à parte, acho que fiquei boa nisso.

O transporte público daqui é limpo, seguro e pontual. Viajando nele, dá para ler aquele livro, ou fuçar no facebook. Sabe aquele tempo que a gente perde no trânsito? Aqui este tempo rende que é uma beleza.

Os convidados para um jantar quase sempre oferecem trazer sobremesas, ou entradas. E ajudam a tirar a mesa e colocar as coisas na máquina. Todo mundo aqui sabe que está no mesmo barco.

A caminhada até o supermercado é uma delícia para relaxar. Quando vou a pé, passo por uma floresta, uma escola cheia de crianças alucinadas e em 13 minutos estou lá, sem ter que parar carro.

Sentar no próprio jardim florido para ler um livro, decorar a casa com hortênsias do jardim e comer as abóboras que você mesma plantou é simplesmente maravilhoso.

E aquele serviço lento do restaurante? Acaba sendo uma oportunidade para colocar o papo em dia com os amigos ou namorar sem pressa na mesa. Tá com pressa? Vai para o Mc Donalds!

A falta do serviço acessível acaba trazendo outros benefícios e desenvolvendo novos talentos.

Outro dia me perguntaram o que sinto mais falta na minha vida aqui. “Sinto falta do help desk”, afirmei. Aquele número que a gente liga quando trabalha em uma grande empresa, e eles resolvem tudo em um passe de mágica. Aquilo não tem preço. Eu, que agora sou autônoma, às vezes apanho com alguns paus no meu computador.

Depois, pensei melhor. O help desk tem preço sim. Tudo tem preço na vida. O help desk é caro pra caramba!

Talvez a ralação toda seja o preço de morar em um lugar seguro, lindo de morrer, onde as coisas funcionam e as pessoas são respeitadas.

Eu sinceramente, ainda acho o help desk mais caro.