Queijos e vinhos na Suíça


Minha semana tem voado. Meus passeios matinais com Roger, o trabalho e vários contatos para encontrar um armazém, as arrumações e organizações de casa, desenhos de viagens, inúmeras passadas de aspirador, sim os pelos insistem em cair... tudo tem lotado meu dia. Quando o dia acaba, acabou. Não cabe mais nada nele.

Não paro um minuto e, invariavelmente, no final do dia, estou um caco.

Tentando remar contra esta maré de não ter um minuto, resolvi socializar e convidar cinco casais para um queijo e vinho aqui em casa.

Tem coisa mais simples e gostosa que queijos e vinhos no inverno? Coloca a mesa, nem precisa de talheres, e pronto, cada um se serve como e quando quiser. Perfeito!

Pois é... mero engano.

Fiquei tensa de não ter comida suficiente e inclui uma sopa de cebola no menu. Aquela sopa que a gente cozinha na noite anterior por umas 4 horas, que perfuma a casa inteira e que fica magnifica no dia seguinte. E é servida com torrada e queijo gruyères derretido em cima. Dos Deuses! Fiz a sopa, claro! Vai ter que ter cumbuca e colher. Por uma boa causa!

E sobremesa? Pensei em um cheese cake mas daí achei que depois de tanto queijo, ninguém merece comer cheese cake. Enganada de novo! Perguntei para Meu Suíço uma sugestão e ele “Cheese Cake, o seu é a minha sobremesa favorita”. Dancei. Claro que fiz o dele e encarei um mousse de chocolate para salvar os convidados que não aguentarão mais queijos.

Fui a uma fromagerie comprar os queijos. Queria queijos melhores, diferenciados. Cheguei lá, fiz meu briefing, contei do evento e perguntei o que ela me aconselharia. Fui então bombardeada de perguntas sobre os vinhos, os pães, sei lá mais o que. Desconversei. Não sabia qual vinho seria servido. Comprei dois tipos de queijos tipicamente suíço e sai. Complicado comprar queijo assim. Corri para o supermercado.

Um dos casais é francês. Para os franceses, que podem comer queijos diferentes todos os dias do ano – eles têm mais de 365 tipos diferentes de queijos no país – queijo é coisa séria. Muito séria. Ela, francesa e sabidamente apaixonada por queijos, me liga, super gentil, oferecendo-se para trazer alguma coisa.

Adoro esta maneira que o pessoal daqui oferece ajuda. Sempre tem alguém querendo trazer algo, para ajudar, dividir a tarefa, o custo, o trabalho. Acho simpático mas sinceramente, prefiro me virar sozinha. Sou meio maniaca e gosto de saber direitinho o que vai ter aqui em casa.

Enfim, ela se ofereceu e eu agradeci. Disse que já tinha comprado a maioria dos queijos e que estava tudo sob controle. Perguntei então, por curiosidade, quantos gramas de queijo o francês calcula por pessoa. Bom, nesta pergunta inocente, abri a porta da inspeção. Expliquei então da sopa e das sobremesas. Ela sugeriu 100 a 150 g por pessoa. Razoável, pensei.

Ai surgiu a pergunta crucial: que queijo eu serviria. Eu sou ruim para lembrar nome de gente, imagine nome de queijo. Vou comprando os que eu gosto e mantendo aquela regra de ter queijo duro, queijo mole, queijo de cabra e queijo bleu. Tentando não dar vexame, e nem desvalorizar meu evento, corri para a geladeira enquanto falava e comecei a ler os rótulos. Passei no teste, ou ela foi super educada.

Brinquei que era ousada, convidando franceses para queijos e vinhos. Ela gostou da brincadeira. Se sentiu elogiada. De qualquer forma, ela iria para a França na tarde do nosso encontro, e disse que traria dois queijos de lá. Eu tenho tudo menos sangue frio para esnobar um queijo francês.

Achando que estava tudo resolvido, cruzo com uma vizinha que foi convidada. Ela começou com um papo mole, querendo chegar sabe-se lá onde. Elogiou a iniciativa de organizar o queijos e vinhos. Disse estar animada com a noitada. Eu fui logo avisando que seria simples, nada de mais. Ela então deve ter tomado coragem e perguntou se eu serviria batatas. Batatas? Reagi logo dizendo que não. Ela então disse que na Suíça as pessoas amam comer batatas com queijo. Eu sei, fui me adiantando, mas não será nem raclette nem fondue. Só queijos. Ela então disse que adora. Perguntou se poderia trazer batatas. Bom, quem sou eu para acabar com a noite dela? Lá vou eu colocar facas e pratos na mesa.

E assim, um queijo e vinhos simples acaba virando um evento.

Eu gosto assim.

A casa já está perfumada com a sopa, a mesa linda, flores e queijos para todos os lados. Vinhos abertos, aerando.

E eu feliz. Não sei fazer mais ou menos. Vou descansar amanhã.